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terça-feira, 31 de maio de 2011

Campo de Ourique. o bairro






um bairro que se mastiga às fatias
como um bolo morno
que a cozinheira bateu demoradamente
voluptuosamente

cafés esplanadas casas de comida
rostos mitigados
lassos âncorados
donos de um valor
um bairro traçado
a esquadro e transferidor
bairro quadriculado
onde casas de barro
multiplicam tons do amarelado



Campo de Ourique ecoa a vitória
de Afonso Henriques
Rei de Portugal
e de Santiago santo Matamouros
os sinos tocam
em Santo Condestável
e a poesia espreita
na Casa de Pessoa


no mercado há cores
de frutos e flores
e a prata dos peixes
e o ouro dos pregões
brilham no tesouro
com as pérolas louras
do colar da senhora
a Tentadora

                                        

e a Arte Nova
e a esfera armilar
e a República e a primeira granada
que aqui se fez soar
e a Maria da Fonte
que ergue a foice
e afasta os papões
porque as crianças 
brincam descuidadas
e os velhos no jardim
fazem jus ao jogo
e à hora das cartadas







quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

o cão do sem-abrigo


(Alberto Giacometti)


amarelo e frio
o cão do sem-abrigo
espera paciente
a hora do sono

passa gente quente
ecoando dentro
cânticos de natal

gente invade a rua
o deserto a noite
o homem os cães
o palco ao luar
o cenário artificial
do quarto de dormir

o frio a noite
a cidade iluminada
os olhos do cão
e o sem-abrigo
esperam pacientes
que os vultos se vão
que desapareçam
quentes confortáveis
e levem a música
os cânticos de natal
a festa o palácio

deixem livre a rua
e a hora do sono

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

o dia


estou colada no dia
que emerge e alarga
tentáculos por casas e ruas

alongo-me na luz
inevitavelmente
e percorro todos os lugares
do labirinto
com a certeza mecânica
dos velhos monstros sagazes

só que eu preferia
alimentar-me
de densos perfumes naturais
e do calor e do vento
que é livre e suave



domingo, 18 de outubro de 2009

Lisboa




Lisboa está
em recortes de espera
ao sol e ao tempo
velho e inerte

a luz se esbate
e cobre as sombras
de casas de mulheres velhas
e ruínas de guerreiros antigos

em Lisboa a luz se fixa
nas paredes brancas
e fica branca à espera