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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

li durante três dias o «Livro do Desassossego»...

(Zao Wou-Ki)




  Li durante três dias o Livro do Desassossego de Bernardo Soares a procurar incansavelmente um certo texto que eu tinha na cabeça de uma certa forma, mas que só a releitura das palavras exactas me poderia trazer sossego. Terminei o passar já quase desesperado de todas as páginas sem que nada achasse. Fechei os dois volumes do livro e pu-los a meu lado.
  De repente, peguei no volume II e abri ao acaso. Abri precisamente na página que tinha procurado durante três dias. «Quem está ao canto da sala dansa com todos os dansarinos. Vê tudo e poque vê tudo, vive tudo. [...] tanto vale o contacto com um corpo como a visão dele, ou até, a sua simples recordação.»
  Esta nossa capacidade de sentir no pensamento é realmente um espanto. Mas é uma absurda incapacidade de comunicação. Como seria sentir intensamente e simultaneamente no pensamento e no contacto? Passar à comunicação mais profunda que fosse possível imaginar? Se calhar é impossível, se calhar F. Pessoa já tinha desistido, ou então desatou a arranjar teorias alternativas para sobreviver na sua incapacidade.


  (Passagem de um diário de 1985.)


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

a morte, à maneira de Ricardo Reis

(Giorgia O'Keefe)



passarei a morte, com humildade
quando ela chegar, com o tempo

como sofremos todas as dores
quando a vida as traz
e todas as alegrias e as festas
que passam breve

passarei a morte, com emoção paciente
como passo todas as coisas da vida
que, depois dela, como de todas as coisas
a outra margem verde surgirá




segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

deambulações em volta de uma imagem de Novalis

(Salvador Dalí)




frente ao corpo esfíngico
entro desveladamente
no templo do meu corpo

só alguns corpos são templos vivos
mas o templo é o lugar do mistério
da ausência

todo o corpo é um templo em construção eterna

que dizem os sábios das ruínas do templo?
a presença do enigma permanece
nos destroços abandonados do templo

o amor é a contemplação da miragem
do templo sagrado

o tempo da união dos corpos
rasga um clarão de júbilo
na penumbra dos templos

é breve o conforto
da oculta face do deus
venerado no templo

em vão mergulho o meu corpo tenso
no regaço amplo
do templo