quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

falam os corpos

(René Magritte)


falam os corpos
enigma de babel
fogueira do silêncio
- os corpos -
equívocos mantos
fugidios
íman traição
do frio sedento



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

o natal em casa das tias velhas

(René Magritte)



o natal em casa das tias velhas
os primos as primas os pais
a avó as histórias os doces
ó menino Jesus, vê lá, vê lá
que prendas nos trazes 
na hora do natal

eram estranhos dias rubros de mistério
em casa à braseira carinhos e tréguas
o tempo corria, curtos os momentos
todos juntos juntos instantes de febre

morreram as tias e a casa velha
e os sapatinhos e a chaminé
morreu a avó e o primo cresceu
e também morreu
menino Jesus, que vens no natal
que saudades trazes dentro do bornal




domingo, 26 de dezembro de 2010

a natureza está nua, tão nua


(Antonio Cazorla)




a natureza está nua, tão nua
e nua, eu estou perante ela
o vento, a chuva, o sol
a água do mar, a sensação do precipício
a passagem das nuvens, o azul do céu
a luz branca do sol voando pelas nuvens cinzentas
as nuvens de chuva, a luz de tempestade
o rio de chumbo, a neve
não, não são metáforas, não
à merda a metáfora e a literatura
é sensual, é erótico
este encanto tenso
pela natureza



 

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

pinceladas de Natal





passa gente voa gente
perfumada de Natal
traz canela nos cabelos
no sangue traz vinho quente

estão mendigos nos passeios
velhos jovens aleijados
decepados do Natal

é Inverno
chove e gela
nas ruas da capital

passa gente voa gente
perfumada de Natal

domingo, 19 de dezembro de 2010

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

o cão do sem-abrigo


(Alberto Giacometti)


amarelo e frio
o cão do sem-abrigo
espera paciente
a hora do sono

passa gente quente
ecoando dentro
cânticos de natal

gente invade a rua
o deserto a noite
o homem os cães
o palco ao luar
o cenário artificial
do quarto de dormir

o frio a noite
a cidade iluminada
os olhos do cão
e o sem-abrigo
esperam pacientes
que os vultos se vão
que desapareçam
quentes confortáveis
e levem a música
os cânticos de natal
a festa o palácio

deixem livre a rua
e a hora do sono

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

não desistirei





não desistirei
do meu desejo

por ele
eu queria chegar ao âmago
tocar-me a alma

despido
da folhagem postiça
é forte e puro
como o poder de um astro

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

corro no leito da vida




corro no leito da vida
com a vida

faço só o que ela quer

eu, o que sou?
sentidos para escutá-la
e um corpo
para os gestos
que ela ordene

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

caminho




caminho na rua deserta
cobre-me a capa
do movimento
do acotovelamento
da pressa do andar
da indiferença dos automóveis
do roncar dos aviões
das conversas desfeitas
dos cafés
das esquinas

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

um declive

(Zao Woo-Ki)




    desço um declive da vida. A encosta já foi alta, subi-la foi penoso e irremediável era a subida. Um fio de corda lançado pela mão invisível estava sempre mais além, mas tão próximo que desperdiçá-lo seria perder uma das frágeis oportunidades da vida. Por isso, continuava essa subida avassaladora receando perder uma grama de qualidade moral se, por cobardia, colhesse distraidamente flores em vez de, dextra e firmemente, agarrar o metro seguinte de corda virgem que se estendia frente a mim.
 Colhi apenas as ervas que me alimentariam na subida, esfreguei as mãos na resina para que não me resvalasse a corda.
  No alto da montanha, olhei em volta os horizontes ganhos e não cantei vitória. Emocionei-me comovidamente pelo espectáculo pleno que contemplava. Ah, mas mesmo essa embriaguez desprendia gotas de suor que me queimavam o corpo como o faz o orvalho às frágeis plantas.
  E logo a terra da descida se me mostrou húmida e escorregadia sob a nudez dos pés. E já sem esforço algum, o corpo ia descendo, perdendo a altitude e só na memória trazendo a perfeição do espectáculo.
  Agora no declive, olho para os frutos que trago. Tenho roxos os dedos das carnudas amoras e quando caiem por terra e, sem querer, as esmago, fica um solo de batalha, da batalha que foi, feroz e ensanguentada.


  (Página de um diário de 1987.)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

li durante três dias o «Livro do Desassossego»...

(Zao Wou-Ki)




  Li durante três dias o Livro do Desassossego de Bernardo Soares a procurar incansavelmente um certo texto que eu tinha na cabeça de uma certa forma, mas que só a releitura das palavras exactas me poderia trazer sossego. Terminei o passar já quase desesperado de todas as páginas sem que nada achasse. Fechei os dois volumes do livro e pu-los a meu lado.
  De repente, peguei no volume II e abri ao acaso. Abri precisamente na página que tinha procurado durante três dias. «Quem está ao canto da sala dansa com todos os dansarinos. Vê tudo e poque vê tudo, vive tudo. [...] tanto vale o contacto com um corpo como a visão dele, ou até, a sua simples recordação.»
  Esta nossa capacidade de sentir no pensamento é realmente um espanto. Mas é uma absurda incapacidade de comunicação. Como seria sentir intensamente e simultaneamente no pensamento e no contacto? Passar à comunicação mais profunda que fosse possível imaginar? Se calhar é impossível, se calhar F. Pessoa já tinha desistido, ou então desatou a arranjar teorias alternativas para sobreviver na sua incapacidade.


  (Passagem de um diário de 1985.)


sábado, 25 de setembro de 2010

Cabanas, 1987

 



  Ancorados no pântano, os barcos inclinam pinceladas brancas na tela negra. Enrolada sobre o muro, a mulher sossega os olhos negros no reclinar das imagens.
  A trágica ambiguidade da existência, a angústia do não-entendimento, da não-compreensão, encontra o reflexo no brilho traiçoeiro do lodo repelente.
  O cigarro consome-se sofregamente. Sempre a solidão é atenta, contemplativa e sôfrega. E todo o imbecil encontra os rotineiros pretextos da intromissão.
  Um homem rápido dirige-se à mulher. Finge os movimentos de descontracção. «Tem lume, por favor?», parado olha a mulher.
  Alguns segundos moldam a estátua do tempo. A mulher comprime-se. Desenha no rosto o ódio pela aproximação. Decide-se. O lume do cigarro traça uma recta na noite negra. A mão do homem agarra-lhe o cigarro e deles se juntam incandescentes as bocas, as bocas dos cigarros.
  «Obrigado!». Um último olhar do homem fixa a mulher. Volta o corpo obrigatoriamente e, compassado, dirige o andar vergado para a viatura.
  A mulher retoma o fumo do cigarro, a longa respiração do dragão, a ponte do olhar fixada nos barcos âncorados no pântano.


domingo, 19 de setembro de 2010

o croissant

(Pablo Picasso)




   Se
eu pensar 
 que sou  um croissant
 com creme, daqueles
que chegam pela manhã,
  bem cedo, todos arrumadinhos
   sobre a mão de um pasteleiro eficiente,
 vou sentir-me morna e fofa, com uns dentes
tenrinhos enterrando-se-me na pele, hum...,
 assim volumosos, lentos, cravando-se
 duros, empurrando a carne,
 rodeando-me de lábios,
 escondendo-me na gruta
 macia, mole,
húmida de
 uma boca!


   ( Passagem de um diário de 1985)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

criança de escola

(Andrew Wyeth)



 
outrora foi o tempo
das ervas molhadas
coladas molhadas
nos sapatos de escola

e das pedras rolando
nos atalhos de terra
esperando os passos
da menina de escola
e as pontas dos pés
que as levam rolando

e andam as pedras
caladas atentas
companheiras dos pés
e dos sapatos molhados
da menina de escola




quarta-feira, 8 de setembro de 2010

usemos o corpo inteiro



 

usemos o corpo inteiro
a metade direita e a esquerda
a visível e a invisível

só todas as partes do corpo
fazem o corpo inteiro

somos os decepados do universo
os desgraçados
vítimas da preguiça
procurando pelos séculos
os bocados do corpo
abandonados

procuremos o corpo inteiro
só todas as partes do corpo
farão o corpo inteiro




segunda-feira, 9 de agosto de 2010

os morangos na boca



 



 

os morangos na boca
de Tess d'Urbevilles
o filme de Roman Polanski
escorriam o sangue
da sedução e da volúpia

lentamente desfaziam
em sabores líquidos
de medo e traição



domingo, 8 de agosto de 2010

ressonâncias






ó ria da minha aldeia
brilhando na tarde calma
cada brilho do teu corpo
brilha dentro da minh´alma

sim, soam em mim
os versos de Pessoa
talvez pelo tom dolente
ou por algum eco remanescente

mas a ria da minha aldeia
tem sangue vivo em cada guelra
e por ela desliza
pitada a pitada
a vida



terça-feira, 6 de julho de 2010

primeiro encontro

(Edward Hopper)




vi-te na obscuridade de casas
de luz artificial e gente
que envolvia o silêncio do teu rosto branco
onde pontos escuros brevemente flutuavam

deslizaste à margem
de copos e vinhos
palavras ruidosas e quebradas
cortando fios que julgavam estender

procuraste numa laranja
a doçura da água que faltava
mergulhaste os olhos e as mãos
escorregando no vermelho
que desfazia no teu corpo
e acariciava

ficaste no negro das ruas
em companhias solitárias e vazias
enovelando desejos e cansaços
em caminhos planos e longos sem fim




sábado, 22 de maio de 2010

esqueço

(Amadeu de Sousa Cardoso)



 
esqueço
o que o meu olhar quer
estender os braços preguiçosos sobre ti
tocar as tuas palavras novas
perscrutar curioso o lugar
das tuas mãos, dos teus cabelos

esqueço
no instante festivo
a festa do instante

e uma névoa espessa envolve
o feitio dos teus objectos
e as cores e a ternura
das tuas coisas


segunda-feira, 10 de maio de 2010

brincadeira do destino

(Hans Hofman)



 

quando o destino brinca
de tão cruel maneira
não sei se escolha a morte por caminho
ou se entre na estouvada brincadeira

mas se aceito o jogo do destino
não se perdoa o choro nem a queixa
que o destino não é cego menino
nem é certo o deserto em que nos deixa




terça-feira, 4 de maio de 2010

há dias em que se morre

(Jackson Pollock)


 
há dias em que se morre
no pulso o relógio morre
não mais a vida de outrora
não mais o calor dos dias calmos
dos afagos
dos jantares quentes sobre a mesa
não mais
o perfume selvagem das manhãs claras
as confiadas palavras
de amor

há dias em que se morre
e depois
o fantasma passa
pelas ruas pelas casas
passa
por lugares por cidades
corre pelas estradas
não pára não quer olhar
passa passa



quarta-feira, 28 de abril de 2010

sonho

(Charles E. Burchfield)



 
se no corpo pesado do tempo
tu reencontrasses a veia
que o meu sangue desenha,
viajaríamos por certo
em planícies de camélias azuis
e pássaros verdes

percorremos juntos jardins assombrados
escondemos o calor rubro
das nossas bocas e dos nossos corações
em ciprestes carcomidos e ulcerados

mas no grande rio comprido
que nos dias calmos contemplamos
voga por vezes uma pétala branca
e um botão sonolento
tranquilo da rosa por abrir



quarta-feira, 21 de abril de 2010

o vulcão da Islândia

(dn.pt)




esplêndido e indiferente
o vulcão da Islândia
derrama a lava ardente
e incandescente
sobre os incautos e soberbos
glaciares azuis

impúdica a bocarra negra
jorra em jactos
línguas de fogo
em descomposta e pornográfica
postura

ardendo correm
as gélidas águas
sobre o leito maternal
da terra

e fálicos os fumos
penetram fundo
os abertos e libertinos
espaços siderais




sábado, 17 de abril de 2010

Conversas com Lewis Carroll [VII]



e da Escola do Mar,
onde ouviu falar?
quantas lições por dia
tinham lá lugar?
dez no primeiro dia
do ano, suspeito
nove no segundo
e assim por diante
e os sumários
que bela invenção
porque de dia para dia
eram mais sumárias
as aulas, pois então
e as disciplinas
que desvario que sensação
a Histeria Antiga e Moderna
o Despenho o Destroço
a Tintura a Carvão
e as operações da Aritmética
a Ambição a Distracção
a Nulificação e a Decisão
e para manter a tradição
a Música o Francês
a Lavagem da Roupa
e um curso ordinário
de Porte e Postura

que grande programa
o senhor inventou
por ano dez dias
de escola e bastou





sexta-feira, 16 de abril de 2010

Conversas com Lewis Carroll [VI]



Oh, é o amor, é o amor,
que faz girar o mundo!
esta é uma máxima da Duquesa
ou um verso de Shakespeare
ou de Camões
ou um pensamento de Galileu
ou de Copérnico
ou mesmo de Carl Sagan



quinta-feira, 15 de abril de 2010

Conversas com Lewis Carroll [V]



o senhor, Lewis Carroll, sabia
que os reis e as rainhas
caiem todos
como baralhos de cartas

- Cortem-lhe a cabeça!
- Cortem-lhes as cabeças!
as ordens das rainhas e dos reis
de copas de paus de ouros de espadas
são sempre ordens de cartão
e os seus lacaios
fiéis ou não
não passam de carrascos
de papelão



quarta-feira, 14 de abril de 2010

Conversas com Lewis Carroll [IV]



Porque é que o chapeleiro louco
faz perguntas loucas?
Porque é que um corvo
se parece com uma secretária?
Porque é que o corvo é negro
e anuncia a morte?
Porque é que uma secretária preta
lembra sempre um antepassado morto?
Edgar Allan Poe escreveu «O Corvo»
sobre uma secretária?
Acredito que o senhor, Lewis Carroll,
por vezes escondia a depressão
sobre uma secretária solitária.



terça-feira, 13 de abril de 2010

Conversas com Lewis Carroll [III]



aquele prodígio da sua terra natal,
senhor Lewis Carroll,
o gato de Cheshire
o gato que ri
parecia à menina Alice
a coisa mais estranha
que já vira na vida
mas todas as coisas da vida
são estranhas
quando as vemos pela primeira vez

que importa ao sorriso
que o gato desapareça
é o sorriso é o sorriso
que sempre deve ser a porta


domingo, 11 de abril de 2010

Conversas com Lewis Carroll [II]





sabe, senhor Lewis Carroll,
aquela lânguida lagarta azul
a fumar um despreocupado cachimbo
de água
sobre um cogumelo aveludado
fala com palavras
de sábia pitonisa
e ensina à menina Alice
as regras de um crescimento equilibrado

e também o caminho para a beleza
e as maravilhas de um jardim desconhecido


Conversas com Lewis Carroll [I]



Cónego Lutwidge Dogson
professor de ciências matemáticas
ou Lewis Carroll
escritor de histórias maravilhosas
que ideia teve o senhor
de pôr a menina Alice
a crescer e a minguar
como se no lugar de braços
pernas e cabeça
a menina tivesse números
e o senhor se entretivesse
a inventar contas
de somar e de diminuir

as meninas podem ser formosas
mas seguras
já Camões dizia que não são
por isso, ainda bem que o senhor se lembrou
do cogumelo sempre ao seu dispor
assim a menina Alice podia sempre decidir
o tamanho que melhor ficasse em seu favor

quando as meninas podem decidir
e a seu bel-prazer crescer e diminuir
todas as operações de matemática
se transformam numa boa prática


sábado, 27 de março de 2010

não ter um grande desejo




 

não ter um grande desejo
é perder-se
em desejos caseiros
amarelados e foscos

é perder-se
em pântanos de lama
com anéis de brilhantes
repelentes

é perder-se
em esgares brancos
dormitando
por ruas vazias

é perder-se
perder-se
sem nau nem proa
nem margem nem porto



sábado, 20 de março de 2010

na Primavera

(Pablo Picasso)



 
na Primavera
não devia haver morte
nem doença nem lástima
nem ruas sebentas e pegajosas
nem gente trôpega e andrajosa
nem céus negros
nem rostos sombrios

mas há!

o dia da árvore
o dia da poesia
os mercados de flores
anunciam-se por teimosia
mas o Sol do primeiro verão
o ar morno e perfumado
que invade o corpo
e lhe segreda
- está aqui a felicidade!

onde está?


sexta-feira, 19 de março de 2010

André Rubliov


(o filme de Andrei Tarkovsky) 


André Rubliov
ou o olhar sossego

irmão André Rubliov,
a água é um mosteiro
onde se chora a dor
da criação

a água, irmão, é um tufão
que esconde na terra
os bárbaros grãos
de uma traição




segunda-feira, 15 de março de 2010

o baloiço de Effi Briest


(com o filme de Fassbinder)


o baloiço de Effi Briest
leva o branco vestido
de mitos de prados
húmidos aveludados
de amores silvestres
e inquietas mimosas

as meninas
e os seus baloiços quebrados
não choram

os baloiços de todas as meninas
quebraram-se em manhãs doiradas
e esconderam-se em sótãos
de histórias inefáveis

sexta-feira, 12 de março de 2010

essa fibra que me tece

(Edward Hopper)



 
essa fibra que me tece
não é linho nem é seda
é o aço das couraças
dos guerreiros doutras eras

ficou esquecida e aberta
qualquer articulação
e só quem passa de fronte
pode entrar
e morar dentro
do fundo do coração