Textos que, com uma paciência de deuses, aguardaram a hora de aparecer e outros que vão surgindo dia-a-dia
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
domingo, 8 de agosto de 2010
terça-feira, 6 de julho de 2010
primeiro encontro
(Edward Hopper)
vi-te na obscuridade de casas
de luz artificial e gente
que envolvia o silêncio do teu rosto branco
onde pontos escuros brevemente flutuavam
deslizaste à margem
de copos e vinhos
palavras ruidosas e quebradas
cortando fios que julgavam estender
procuraste numa laranja
a doçura da água que faltava
mergulhaste os olhos e as mãos
escorregando no vermelho
que desfazia no teu corpo
e acariciava
ficaste no negro das ruas
em companhias solitárias e vazias
enovelando desejos e cansaços
em caminhos planos e longos sem fim
sábado, 22 de maio de 2010
esqueço
(Amadeu de Sousa Cardoso)
esqueço
o que o meu olhar quer
estender os braços preguiçosos sobre ti
tocar as tuas palavras novas
perscrutar curioso o lugar
das tuas mãos, dos teus cabelos
esqueço
no instante festivo
a festa do instante
e uma névoa espessa envolve
o feitio dos teus objectos
e as cores e a ternura
das tuas coisas
segunda-feira, 10 de maio de 2010
brincadeira do destino
(Hans Hofman)
quando o destino brinca
de tão cruel maneira
não sei se escolha a morte por caminho
ou se entre na estouvada brincadeira
mas se aceito o jogo do destino
não se perdoa o choro nem a queixa
que o destino não é cego menino
nem é certo o deserto em que nos deixa
terça-feira, 4 de maio de 2010
há dias em que se morre
(Jackson Pollock)
há dias em que se morre
no pulso o relógio morre
não mais a vida de outrora
não mais o calor dos dias calmos
dos afagos
dos jantares quentes sobre a mesa
não mais
o perfume selvagem das manhãs claras
as confiadas palavras
de amor
há dias em que se morre
e depois
o fantasma passa
pelas ruas pelas casas
passa
por lugares por cidades
corre pelas estradas
não pára não quer olhar
passa passa
quarta-feira, 28 de abril de 2010
sonho
(Charles E. Burchfield)
se no corpo pesado do tempo
tu reencontrasses a veia
que o meu sangue desenha,
viajaríamos por certo
em planícies de camélias azuis
e pássaros verdes
percorremos juntos jardins assombrados
escondemos o calor rubro
das nossas bocas e dos nossos corações
em ciprestes carcomidos e ulcerados
mas no grande rio comprido
que nos dias calmos contemplamos
voga por vezes uma pétala branca
e um botão sonolento
tranquilo da rosa por abrir
quarta-feira, 21 de abril de 2010
o vulcão da Islândia
(dn.pt)
esplêndido e indiferente
o vulcão da Islândia
derrama a lava ardente
e incandescente
sobre os incautos e soberbos
glaciares azuis
impúdica a bocarra negra
jorra em jactos
línguas de fogo
em descomposta e pornográfica
postura
ardendo correm
as gélidas águas
sobre o leito maternal
da terra
e fálicos os fumos
penetram fundo
os abertos e libertinos
espaços siderais
sábado, 17 de abril de 2010
Conversas com Lewis Carroll [VII]
e da Escola do Mar,
onde ouviu falar?
quantas lições por dia
tinham lá lugar?
dez no primeiro dia
do ano, suspeito
nove no segundo
e assim por diante
e os sumários
que bela invenção
porque de dia para dia
eram mais sumárias
as aulas, pois então
e as disciplinas
que desvario que sensação
a Histeria Antiga e Moderna
o Despenho o Destroço
a Tintura a Carvão
e as operações da Aritmética
a Ambição a Distracção
a Nulificação e a Decisão
e para manter a tradição
a Música o Francês
a Lavagem da Roupa
e um curso ordinário
de Porte e Postura
que grande programa
o senhor inventou
por ano dez dias
de escola e bastou
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Conversas com Lewis Carroll [VI]
Oh, é o amor, é o amor,
que faz girar o mundo!
esta é uma máxima da Duquesa
ou um verso de Shakespeare
ou de Camões
ou um pensamento de Galileu
ou de Copérnico
ou mesmo de Carl Sagan
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Conversas com Lewis Carroll [V]
o senhor, Lewis Carroll, sabia
que os reis e as rainhas
caem todos
como baralhos de cartas
- Cortem-lhe a cabeça!
- Cortem-lhes as cabeças!
as ordens das rainhas e dos reis
de copas de paus de ouros de espadas
são sempre ordens de cartão
e os seus lacaios
fiéis ou não
não passam de carrascos
de papelão
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Conversas com Lewis Carroll [IV]
Porque é que o chapeleiro louco
faz perguntas loucas?
Porque é que um corvo
se parece com uma secretária?
Porque é que o corvo é negro
e anuncia a morte?
Porque é que uma secretária preta
lembra sempre um antepassado morto?
Edgar Allan Poe escreveu «O Corvo»
sobre uma secretária?
Acredito que o senhor, Lewis Carroll,
por vezes escondia a depressão
sobre uma secretária solitária.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Conversas com Lewis Carroll [III]
aquele prodígio da sua terra natal,
senhor Lewis Carroll,
o gato de Cheshire
o gato que ri
parecia à menina Alice
a coisa mais estranha
que já vira na vida
mas todas as coisas da vida
são estranhas
quando as vemos pela primeira vez
que importa ao sorriso
que o gato desapareça
é o sorriso é o sorriso
que sempre deve ser a porta
domingo, 11 de abril de 2010
Conversas com Lewis Carroll [II]
Conversas com Lewis Carroll [I]
Cónego Lutwidge Dogson
professor de ciências matemáticas
ou Lewis Carroll
escritor de histórias maravilhosas
que ideia teve o senhor
de pôr a menina Alice
a crescer e a minguar
como se no lugar de braços
pernas e cabeça
a menina tivesse números
e o senhor se entretivesse
a inventar contas
de somar e de diminuir
as meninas podem ser formosas
mas seguras
já Camões dizia que não são
por isso, ainda bem que o senhor se lembrou
do cogumelo sempre ao seu dispor
assim a menina Alice podia sempre decidir
o tamanho que melhor ficasse em seu favor
quando as meninas podem decidir
e a seu bel-prazer crescer e diminuir
todas as operações de matemática
se transformam numa boa prática
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