domingo, 24 de abril de 2011

a troika


(Henri Matisse)




a troika
troca as voltas
troika a três voltas
troca os passos
troika a três passos
dos dansarinos
bailarinos
filosofias do susto
do terror
NÃO!
a troika-papão
marioneta-papão
fecha a mão abre a mão
quem nos bastidores
tem engenho e arte
e puxa o cordão


sexta-feira, 22 de abril de 2011

a ti, Terra


(M. C. Escher)


eu teria que amar
a Terra

porque ela me delimita
e me reencontra
e me torna palpável
no espaço vazio


sábado, 16 de abril de 2011

Portugal, o meu país



oferece maçãs verdes pelas manhãs
Portugal, o meu país
tem carros elétricos de séculos passados
a subir lampeiros as altivas colinas de Lisboa
e lisboetas absortos enleados
olhando o rio azul e os longínquos barcos

Camões Pessoa Eugénio de Andrade Sophia
são poetas do meu país
e a ousadia o sonho o génio
são virtudes grandiosas
do povo de Portugal, o meu país

a juventude a festa o 25 de abril
erguem alto nas ruas o vermelho dos cravos
e a revolução a alegria a música
vivem ainda no ânimo e nas mãos
de Portugal, o meu país


sexta-feira, 15 de abril de 2011

o amor o que é?


(Marc Chagall)




(lembrando o poeta José Gomes Ferreira)

o amor o que é?
a força que puxa
o outro do abismo
e salva o que puxa
e o outro
que puxado   vem



quinta-feira, 17 de março de 2011

menina do Japão




´

 
 
chora chora chora, menina
menina do Japão
a noite que passou, o mundo acabou
acabou
os teus caprichos são fachos carpindo
a solidão
que a onda deixou


terça-feira, 15 de março de 2011

as terras lá do Japão



(publico.pt)


sem paixão
olhamos ensimesmados
as terras lá do Japão
como quartos de crianças
sótãos abandonados
sujos desarrumados
cheios de brinquedos quebrados
deixados amontoados
carrinhos barcos comboios
casinhas quintas jardins
bichinhos e bonequinhos

sem paixão
caminhamos nas imagens
das terras lá do Japão
como tristes vagabundos
dobrados rotos imundos
pejados de sacos lúridos
enlameados
sem esperança
de solidão vergastados

sem paixão
ressoamos as palavras
catástrofe radiações
nucleares explosões
hidrogénio reatores
Fukushima e Kawamata
ecos surdos
consternados
indiferentes resignados



terça-feira, 8 de março de 2011

o tempo, o feiticeiro


(Marc Chagall)



 

entre o destino
e o movimento de nós
a balança oscila
inquieta
sem confiança
na justiça do tempo,
o feiticeiro
do reino oculto
das águas



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

o escorpião

(M. C. Escher)

o veneno é a infeção
o ardor nas veias
do sanguíneo fluxo

se o escorpião injeta
o pútrido micróbio
talvez seja a vacina
que o inimigo expecta
e em guerra
o escorpião o dejeta

essa semente maligna
que o escorpião enterra
é o excremento fértil
que floresce a terra



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

meu amor, meu fruto

(Pierre Auguste Renoir)

(ao Pedro)

meu amor, meu fruto,
cheiras a mar
ao peixe
que deixa o suor vivo
nas praias

o fundo da tua boca
tem areias húmidas
onde o sol quente e seco
demorará a chegar


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Praça Tahrir



(Suhaib Salem)



Praça Tahrir
centro do mundo
do mistério
olho mágico de Orus
chave da vida
que abrirá novos reinos
e esquecerá os mortos

na Praça Tahrir
Re, o deus sol
acendeu brilhante
a fogueira branca
da força e da esperança

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

rua da toranjeira perfumada


rua da toranjeira perfumada
onde o sol se encosta
amarelo e quente
e os gatos as mulheres os velhos pescadores
trespassados pelos raios apolíneos
vencidos de sonhos adiados
regurgitam ao sol
fervilhando o sangue
e as fímbrias gastas
dos pesares da vida

domingo, 30 de janeiro de 2011

intimidade

(Wassily Kandinsky)


recolhe-me no regaço terno
nada peças
deixa que entre em ti
a água imparável
de meus olhos líquidos
recebe a raíz das palavras
que corto de mim

são as entranhas da terra
que a tuas mãos levo

a ti o suor da alma confio




quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

caminho junto ao lago

(Armand Charnay)



caminho junto ao lago
por onde o sonho corre
julgando-se sonho

caminho traçado
no fundo das névoas
paciente e certo

essa coisa que prende
os olhos da alma
- ou do sexo
que o sexo é a alma -
essa coisa que voga
além da bruma
e a dizem sonho
é o caminho traçado
junto ao lago
à espera paciente
do passo marcado



domingo, 23 de janeiro de 2011

confusão

(M. C. Escher)



estou perdida numa rua confusa
ah, esta minha fatalidade de perder-me!
de repente, tudo me é estranho
vazio, um turbilhão à minha volta
eles entendem-se, eu não
faço como se entendesse
mas não, estou num deserto
e ao mesmo tempo em Nova Iorque
em Pequim, em Saigão
tenho só uma flor na mão
sei que dessa flor nasceu o mundo
para mim, essa flor tem o mundo todo lá dentro
mas os ventos passam por ela
deformam-na, estrangulam-na
e eu, eu aqui perdida nesta confusão
onde hei-de pôr esta flor perdida?
em que onda do meu cabelo?
em que linha tremida da minha mão?


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Big Bang

(Nasa/ Reuters)



Big Bang e se fez as estrelas
Big Bang e se fez as luas
Big Bang e se fez a vida
Big Bang e se fez o amor
Big Bang e se fez o sexo
Big Bang e se fez o ódio
Big Bang e se fez a morte
meu Deus, Deus é o Big Bang!